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Do baú

Luis Fernando Verissimo

Chovia e relampejava (pelo menos eu suponho que chovia e relampejava) na noite em que os quatro ocupantes de uma “villa” à beira do lago de Genebra fizeram uma aposta para ver que inventava a história de terror mais terrível. Era o verão de 1816, e os quatro eram os ingleses Mary e Percy Shelley e Lord Byron e se amigo John Polidori. Mary inventou o Dr. Frankenstein e seu monstro, Polidori inventou o vampiro aristocrata que anos mais tarde Bram Stoker transformaria, com mais sucesso, no Conde Drácula.

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Polidori, sobre quem pouco se sabe, pode ter se inspirado em Lord Byron para criar seu personagem demoníaco. Também não se sabe se Polidori formava um casal com Lord Byron, que notoriamente traçava tudo, inclusive uma meia-irmã. Outro mistério é o fim que levaram as histórias com que Byron e Shelley participaram do torneio de terror. Nunca mais se ouviu falar delas.

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Mary e Polidori transformaram suas histórias em livros e elas assombraram a imaginação do mundo por mais de um século. Resumiam dois terrores da época que perduram no nosso inconsciente, de uma forma ou de outra, até hoje. Em 1816, Napoleão tinha sido derrotado em Waterloo, e a Europa tentava reconquistar a ordem e o poder do velho regime, desestruturados pela Revolução Francesa e pelo baixinho. Mas já começara a Revolução Industrial, para determinar que nada mais seria como antes. A ciência e as ideias liberais tinham se juntado para criar um monstro. Como o monstro do Dr. Frankenstein, ele era feito com partes de cadáveres de camponeses, com os restos mortais do mundo feudal. O monstro do Dr. Frankenstein diz que quer começar uma nova raça. O monstro conjurado pelas revoluções prenuncia uma nova classe. Ambos são aterradores. O vampiro de Polidori é o senhor feudal que chupa o sangue dos outros por uma danação ancestral, por um vício sem proveito. É o aristocrata monstruosamente apegado ao seu feudo e aos seus direitos de senhor, um inimigo da nova burguesia tanto quanto o proletariado emergente.

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O monstro do Dr. Frankenstein é o terror do novo, da agressão às leis naturais que abençoavam o velho regime e seus privilégios. O monstro de Polidori é o terror do antigo, de uma tradição degenerada tão ameaçadora quanto a nova classe liberada.

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O monstro feito do entulho humano do mundo feudal corporificava o espectro que rondava a Europa depois das revoluções: um novo homem, convencido pela ciência e pelos libertários de que podia ser feliz. "A felicidade é uma ideia nova na Europa", dissera Saint-Juste, quando a Revolução ainda achava que, livrando o povo do despotismo, acabara com o monopólio do bem-estar dos senhores. "Faça-me feliz, mestre" diz o monstro ao Dr. Frankenstein "e eu serei virtuoso". Enquanto não for feliz, o monstro é uma ame aça à vida e à propriedade, como nós sabemos melhor do que o século 19.

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A história de Mary Shelley também pode ser lida como uma lenda admonitória contra a pretensão humana e a heresia da ciência. Seu subtítulo é "O Prometeu moderno". O Dr. Frankenstein, como Prometeu, Fausto e todos os outros inconformados com a morte, também tenta roubar a chispa da vida. Como todos os outros, se dá mal. Mas nem tanto: o bom doutor e seu monstro ganharam, de Mary Shelley, a eternidade da arte.

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Percy Shelley morreu afogado seis anos depois daquele verão na "villa" suíça. Byron morreu na Grécia oito anos depois. Mary Shelley viveu até 1851, mas nunca mais inventou algo parecido com Frankenstein. De John Polidori, de quem não se sabia a vida, também não se sabe o fim.


Domingo, 5 de setembro de 2004.



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